top of page
Buscar

ONTOLOGIA DA ALMA E VULNERABILIDADE MÁGICA


Por Táta Nganga Kamuxinzela

@tatakamuxinzela | @goeteia.com.br | @hermakoiergon



Este texto é um excerto do artigo Entre o Μαθητής e o Μάγος: Iniciação, Transmissão, Autoridade Ritual e Ontologia da Alma do Mundo Antigo ao Brasil Contemporâneo (Parte 2), em produção. A Parte 1 está disponível. Para o enquadramento mais amplo do problema aqui isolado, a questão da vulnerabilidade da alma ao feitiço e das formas de resistência ontológica, pneumática e ritual, remeto o leitor ao texto inaugural desta série, Entre o Não-Racional e o Racional: A Economia Anímica do Feitiço e o Problema da Imunidade Religiosa, no qual se formula, em escopo comparativo deliberadamente mais amplo, a arquitetura geral do problema, desde os PGM e sua topografia anímico-corpórea do ataque mágico (psychē, kardia, hēpar, pneuma) até as ontologias platônicas do ochēma-pneuma, a demonologia privativa de Pseudo-Dionísio, a pneumatologia paulina, as tradições judaicas e islâmicas de proteção e suas recepções medievais, a Reforma e o neopentecostalismo. O presente ensaio deve, portanto, ser lido como aprofundamento de um núcleo específico dessa investigação inaugural: ali se delineia a cartografia trans-histórica da imunidade mágica; aqui se examina, com concentração filosófica maior, o momento estritamente platônico em que Plotino e Jâmblico elaboram, em torno de συμπάθεια, τὸ ἄλογον, νοῦς e ὄχημα, a explicação mais rigorosa da susceptibilidade mágica no Mundo Antigo.


RESUMO:

Este artigo propõe uma ontologia comparativa da resistência ao feitiço a partir da análise sistemática de vinte e quatro tradições religiosas, filosóficas e mágicas que se estendem da Antiguidade tardia ao neopentecostalismo contemporâneo. Partindo dos Papiros Mágicos Gregos e de sua doutrina de vulnerabilidade da psychē, kardia e hēpar à manipulação demoníaca, o estudo percorre as ontologias platônicas do ochēma-pneuma (Jâmblico), a demonologia como privação do Bem em Pseudo-Dionísio, a pneumatologia protetora de Paulo (hagiasmos, Ef. 6:10-18; 1Ts. 5:23), as práticas e amuletos do judaísmo do Segundo Templo, a magia islâmica e a ruqyā corânica, bem como as recepções medievais e reformadas (Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, Malleus Maleficarum) e as formas contemporâneas de guerra espiritual (C. Peter Wagner, teologia da prosperidade, pentecostalismo sul-americano). O artigo identifica cinco teses transversais: i. homologia universal do locus afetivo-imaginativo como ponto de ataque; ii. espectro ontológico do adversário, da eficácia plena à parupóstasis de Pseudo-Dionísio; iii. proteção como ocupação semiótico-ontológica do mesmo espaço visado pelo ataque; iv. imunidade como subproduto da transformação da alma em direção ao seu fundamento ontológico; v. o paradoxo da atenção demoníaca, pelo qual a hiperfocalização no adversário potencializa sua eficácia. A síntese final integra neuroteologia e ciência cognitiva da religião, propondo que os mecanismos de proteção ritual correspondem funcionalmente à reconstrução de esquemas cognitivos de ameaça no córtex pré-frontal.



ONTOLOGIA DA ALMA E VULNERABILIDADE MÁGICA[1]

 

O problema filosófico da susceptibilidade mágica, i.e. por que e como os encantamentos agem sobre seres humanos, encontra sua formulação especulativa mais rigorosa e mais consequente não nos próprios PGM, que pressupõem a eficácia da magia sem tematizá-la filosoficamente, mas no tratado 28 de Plotino (204-270 d.E.C.), Enéada IV.4.40-44, conservado sob o título Sobre as dificuldades relativas à Alma. A passagem inaugural do argumento mágico, em IV.4.40.1-7, formula a questão com a concisão admirável que caracteriza o estilo filosófico de Plotino: Αἱ δὲ γοητεῖαι πῶς; Τῷ τῆς συμπαθείας κρατεῖν καὶ τῷ φύσει εἶναι ὁμολογίαν τῶν ὁμοίων καὶ ἐναντίωσιν τῶν ἀνομοίων (os encantamentos: como [agem]? Pelo predomínio da simpatia e pelo fato de que há na natureza uma concordância dos semelhantes e uma oposição dos dessemelhantes).[2] Esta formulação enganosamente simples encapsula um pressuposto cosmológico de enorme alcance: o Cosmos é um único ser vivo (ζῷον ἕν, zôion hén), cujas partes interagem por vínculos de simpatia (συμπάθεια, sympatheia) e antipatia (ἀντιπάθεια, antipatheia) que percorrem todo o real como nervos percorrem um organismo. O mago não comanda os deuses nem negocia com daimones voluntários: ele simplesmente conhece as cadeias de simpatia que ligam certas plantas a certos astros, certos sons a certas qualidades cósmicas, e as explora para produzir efeitos à distância, exatamente como o médico conhece as propriedades das ervas sem precisar invocar nenhum deus.[3]


Esta cosmologia mágica de Plotino é herdeira de duas grandes tradições: a doutrina estóica da sympatheia universal (o Cosmos como πνεῦμα, pneuma, que percorre e conecta todos os seres) e a teoria platônica do Cosmos como ser vivo animado pela Alma do Mundo (Timeu 30b-c). Sua originalidade consiste em combinar estas tradições num argumento explicitamente dirigido contra as concepções vulgares da magia (que pressupõem entidades divinas capazes de ser coagidas, corrompidas ou seduzidas) e substituí-las por um mecanismo puramente natural. Em termos modernos, poder-se-ia dizer que Plotino naturaliza a magia: ela opera por simpatias imanentes ao Cosmos, não por coerção de vontades divinas ou daemônicas. Esta naturalização da magia tem implicações filosóficas radicais que serão retomadas e modificadas por Jâmblico, mas que já neste ponto abrem uma via de compreensão da susceptibilidade mágica fundamentalmente diversa da do senso comum religioso.


Tendo estabelecido o mecanismo cosmológico geral, Plotino introduz na Enéada IV.4.43-44 uma distinção de alcance doutrinário absolutamente central para a presente investigação: entre a parte irracional da alma (τὸ ἄλογον τῆς ψυχῆς, to álogon tês psychês) e sua parte racional (τὸ λογικόν, to logikón). A distinção não é meramente psicológica ou moral; não se trata simplesmente de dizer que as emoções perturbam o julgamento racional, mas ontológica: o ἄλογον e o λογικόν habitam níveis diferentes do ser, e são afetados por diferentes ordens de causalidade cósmica. Os encantamentos agem sobre o ἄλογον porque este, diferentemente do λογικόν, permanece mergulhado na teia das simpatias cósmicas, participando passivamente do fluxo universal de qualidades e forças que percorrem o Cosmos vivo: é feito da mesma matéria que as estrelas, as plantas e os animais, e portanto ressoa com eles. O λογικόν, por sua vez, na medida em que se mantém voltado para o Uno e para o Νοῦς (Noûs), transcende essa teia e é, por isso, imune às seduções mágicas. Plotino formula esta imunidade com uma frase que é também uma afirmação de programa filosófico: ὁ δὲ σπουδαῖος κρείττων· ἡ γὰρ αὐτοῦ ψυχὴ εἴπερ προσγείους ἡδονὰς φεύγει, φεύγει καὶ τὸ γοητεύεσθαι (o homem virtuoso é superior: pois se a sua alma foge dos prazeres terrenos, foge também de ser encantada).[4]


Esta distinção entre ἄλογον e λογικόν é o fio vermelho que atravessa todo o presente estudo. Ela estabelece uma ontologia da alma em que a vulnerabilidade à influência mágica não é uma falha acidental do indivíduo fraco, mas uma propriedade estrutural da camada irracional da alma: aquela que é, por natureza, permeável ao mundo, sensível às atrações e repulsões que percorrem o Cosmos. A implicação prática é clara: qualquer estratégia de defesa contra a magia que opere apenas no nível do λογικόν (a razão que recusa acreditar em feitiços) é insuficiente, pois o ἄλογον segue respondendo às influências cósmicas independentemente do julgamento racional. É preciso purificar o ἄλογον (ou transformá-lo em aliado) para que a proteção seja efetiva. Neste estudo, a aproximação dos PGM com as religiões afro-brasileiras deve ser entendida em chave funcionalmente comparativa, não como identidade simples de antropologias. O ponto comum não é a coincidência dos vocabulários da alma, mas a percepção recorrente de que há estratos do sujeito mais porosos à influência e, por isso mesmo, mais dependentes de purificação, disciplina e alinhamento ritual. Esta é a razão profunda pela qual tanto os PGM quanto as religiões afro-brasileiras colocam a purificação (κάθαρσις) como etapa preparatória obrigatória: antes de invocar, o operador precisa ter tornado seu próprio ἄλογον menos permeável às interferências externas e mais receptivo à entidade específica que pretende convocar.[5]


Na cultura yorùbá, porém, a vulnerabilidade espiritual não é pensada, em termos estritos, segundo a bipartição de Plotino entre um λογικόν imune e um ἄλογον exposto, mas segundo uma antropologia mais internamente articulada, na qual ara (corpo), ẹmí (sopro vital, princípio anímico), ọkàn (interioridade afetivo-intencional) e sobretudo orí inú (a cabeça interna, princípio de singularização e destino) se co-implicam numa unidade relacional cujo equilíbrio pode ser fortalecido, desviado ou ferido. Filosoficamente, isso significa que a permeabilidade do sujeito ao infortúnio, ao feitiço ou à desordem não se deixa reduzir a uma falha cognitiva da razão discursiva, mas remete a uma desarticulação entre os princípios constitutivos da pessoa; teologicamente, a proteção não decorre de uma fuga contemplativa para fora do mundo, mas de um realinhamento entre orí, caráter (ìwà) e aliança religiosa com as potências tutelares. É nesse ponto que a categoria de àṣẹ se torna decisiva: não mera energia vaga, mas autoridade eficaz, poder realizador e força de atualização que habita palavras, corpos, altares, objetos e divindades, de tal modo que remédio (òògùn), encantamento, sacrifício e invocação não operam como metáforas, mas como técnicas de reordenação ontológica. Mutatis mutandis, a matriz congo-angolana desloca o eixo da análise para uma cosmologia de forças, na qual moyo (vida), ngolo (força/potência), kalunga e kindoki nomeiam menos substâncias do que regimes de circulação vital e de eficácia; por isso, o ataque mágico não é concebido como invasão de uma alma abstrata, mas como desvio ou captura de uma força vital sempre já enredada em relações cósmicas e comunitárias, ao passo que o nganga ou banganga se define precisamente por saber operar essa mesma potência em chave terapêutica, protetora e pública. Nessa perspectiva, as ontologias yorùbá e banto-congo aproximam-se menos da imunidade noética absoluta de Plotino do que de uma teoria da vulnerabilidade como exposição diferencial de princípios vitais e imaginais que exigem disciplina, rito, sacrifício e autorização para serem reordenados.[6]


No Brasil, a Quimbanda pode ser lida como rearticulação afro-diaspórica dessas gramáticas ontológicas sob condições históricas próprias. Filologicamente, o próprio termo remete ao kimbundo kimbanda, i.e. ao curador-especialista ritual, enquanto a história de sua formação moderna passa pela ressignificação colonial de figuras como o kimbanda e o nganga, outrora sacerdotes e mediadores, depois recodificados como feiticeiros sob o olhar luso-cristão; a Quimbanda brasileira nasce precisamente dessa longa operação de deslocamento semântico e ritual. Teologicamente, Exu e Pombagira não funcionam aí como simples equivalentes do demônio cristão nem como meros símbolos psicológicos, mas como inteligências de encruzilhada, mediações ativas entre corpo, desejo, caminho, conflito e justiça, cuja presença reorganiza o campo de forças em que o adepto vive. Filosoficamente, isso implica que a vulnerabilidade mágica, na Quimbanda, tampouco se deixa descrever como problema de crença irracional oposta à razão, mas como exposição do corpo-pessoa a circuitos espirituais, afetivos e materiais que podem ser fechados, desviados ou reocupados por meios rituais específicos. Se Plotino pensava a imunidade como retração do λογικόν para fora da rede simpática que governa o ἄλογον, a Quimbanda, ao contrário, supõe que a proteção só se torna efetiva quando o próprio corpo-encruzilhada é ocupado de maneira legítima por uma presença mais forte e autorizada; não se trata de escapar da dimensão afetivo-imagética, mas de consagrá-la, discipliná-la e pô-la sob regência de uma aliança espiritual eficaz. Nesse sentido, a Quimbanda preserva, em chave afro-brasileira, uma intuição mais próxima de Jâmblico do que de Plotino: a defesa não é simples negação do plano vulnerável, mas sua reconfiguração ritual por uma potência superior que o assume, orienta e protege.


A trajetória desta distinção ontológica não se encerra em Plotino. Ela percorre, com as transformações necessárias, toda a história intelectual ocidental: aparece na antropologia paulina como distinção entre σάρξ (sárx, carne) e πνεῦμα (pneuma, espírito), em Agostinho (354-430 d.E.C.) como distinção entre homo exterior e homo interior, na escolástica como distinção entre appetitus sensitivus e ratio, e reaparece, com sinal invertido e terminologia completamente diferente, no discurso pentecostal e neopentecostal brasileiro de guerra espiritual, onde a vulnerabilidade do homem carnal às investidas demoníacas reproduz, em chave cristã popularizada, a mesma estrutura ontológica platônica da alma bipartida.


Se Plotino localiza a vulnerabilidade mágica na parte irracional da alma sem tematizar explicitamente o veículo (ὄχημα, ochēma) que a liga ao corpo material, é Jâmblico quem elabora a ontologia mais completa e mais consequente da susceptibilidade mágica na tradição platônica tardia. O De Myst., redigido como resposta ponto-a-ponto à Carta a Anebo de Porfírio (234-305 d.E.C.), não é um tratado de magia no sentido comum, mas um manifesto filosófico-teológico que defende a legitimidade e a necessidade da teurgia como via de salvação da alma, superior à via intelectual de Plotino por envolver não apenas o λογικόν, mas o homem inteiro, inclusive seu ἄλογον e seu corpo.[7] A taxonomia de Jâmblico das entidades divinas e semi-divinas, deuses (θεοί), arcanjos (ἀρχάγγελοι), anjos (ἄγγελοι), daimones (δαίμονες), heróis (ἥρωες), almas (ψυχαί) e arcontes materiais (ὑλικοὶ ἄρχοντες), fornece o mapa ontológico dentro do qual se situam as práticas mágicas dos PGM: cada ritual convoca ou opera sobre entidades de um desses níveis, e a competência do especialista consiste precisamente em saber a qual nível cada entidade pertence e qual tipo de rito é adequado para cada nível.


A inovação de Jâmblico decisiva para a teoria da susceptibilidade mágica é a doutrina do ὄχημα πνευματικόν (ochēma pneumatikón, veículo pneumático da alma): um envoltório sutil e luminoso, intermediário entre a alma imaterial e o corpo material grosseiro, que serve como superfície de incidência privilegiada das influências mágicas astrais e daemônicas.[8] O veículo pneumático recebe as impressões dos planetas ao longo da descida da alma pelo Cosmos, acumulando qualidades que determinam, em grande parte, o caráter do ser humano encarnado. A teurgia, neste quadro doutrinário, é precisamente a purificação e o realinhamento sistemático do veículo pneumático mediante rituais que o conformam às séries, símbolos e correspondências próprias das potências convocadas, o que significa que a resistência mágica em Jâmblico não se funda, como em Plotino, na abstinência e na contemplação filosófica, mas em intervenção ritual positiva e transformadora.[9] Esta virada é de enorme importância para a compreensão dos PGM: ela fornece a base filosófica para a ênfase dos papiros na preparação ritual do corpo do operador como condição necessária de eficácia, não é o espírito puro abstrato que opera, mas o operador cujo veículo pneumático foi qualificado pelos banhos, unguentos, abstinências, fumigações e sacrifícios prescritos.


Uma breve excursão a Proclo e, em seguida, às recepções cristãs do problema permitirá medir a produtividade histórica da distinção aqui formulada por Plotino e reelaborada por Jâmblico. A última etapa da cadeia especulativa do platonismo teúrgico que permite compreender em termos rigorosamente ontológicos o fenômeno da susceptibilidade mágica é fornecida por Proclo (412-485 d.E.C.), o último grande sistematizador do platonismo tardio e chefe da escola de Atenas. Proclo radicaliza a tendência privativa da tradição platônica tardia: o mal não constitui uma substância positiva rival do Bem, mas uma deficiência de forma, medida e plenitude.[10] Esta definição ontológica do mal como privação (ἔλλειψις, élleipsis), devedora ao mesmo tempo da doutrina de Plotino acerca do mal como ausência de Bem (Enéada I.8) e da teoria aristotélica da στέρησις (stérēsis, privação), tem implicações diretas e precisas para a teoria da susceptibilidade mágica: a vulnerabilidade de uma alma aos encantamentos externos é proporcional ao seu grau de privação ontológica, i.e. ao quanto ela ainda está aquém do nível de plenitude e proporção que lhe é devido por natureza. Uma alma que realizou plenamente seu modo próprio de ser, que atingiu a completude (τελειότης, teleiotēs) e a proporção (συμμετρία, symmetría) que lhe são constitutivas, é estruturalmente imune à ação mágica externa, não por força de algum escudo sobrenatural, mas pela simples razão de que não há vazio (élleipsis) no qual uma influência parasitária possa se instalar.[11]


A implicação ritual desta ontologia de Proclo é de enorme importância para a compreensão dos PGM e de sua estrutura preparatória: o trabalho de purificação (κάθαρσις) que precede toda operação mágica de alto nível é, simultaneamente, um trabalho ontológico de preenchimento de uma privação: o operador que se purifica não está simplesmente limpando sujeiras, mas restaurando a proporção e a completude do seu veículo pneumático, tornando-o apto tanto para receber as influências das entidades invocadas quanto para resistir às interferências não desejadas. Esta perspectiva filosófica confere às prescrições dietéticas, abstenções sexuais, banhos rituais, fumigações e sacrifícios dos PGM uma dignidade metafísica que vai muito além da simples higiene ritual, e que encontra um paralelo surpreendentemente preciso na insistência das casas de Candomblé e de Quimbanda sobre a necessidade de estar bem (física, emocional e ritualmente) antes de qualquer trabalho de possessão ou sacrifícios votivos e expiatórios.[12]


A trajetória histórica da distinção platônica entre ἄλογον e λογικόν não se encerra com o fechamento da escola de Atenas por ordem de Justiniano (529 d.E.C.): ela penetra profundamente na teologia cristã oriental e ocidental, onde é recodificada em termos bíblicos sem perder sua estrutura ontológica fundamental. Em paralelo ao dossiê platônico, e não como sua simples continuação cronológica, a tradição cristã articulou vocabulários funcionalmente análogos para pensar vulnerabilidade e proteção da alma. A principal via de transmissão é a antropologia teológica de Paulo de Tarso (5-67 d.E.C.), que opera uma distinção funcionalmente análoga entre o homem natural (ψυχικὸς ἄνθρωπος, psychikòs ánthrōpos) e o homem espiritual (πνευματικὸς ἄνθρωπος, pneumatikòs ánthrōpos): ψυχικὸς δὲ ἄνθρωπος οὐ δέχεται τὰ τοῦ πνεύματος τοῦ θεοῦ, μωρία γὰρ αὐτῷ ἐστιν (o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura, 1Cor 2:14).[13] O ψυχικός paulino ocupa, na hierarquia ontológica, o lugar do ἄλογον plotiniano: é o homem que permanece no nível das percepções sensoriais e dos afetos corporais, incapaz de perceber as realidades espirituais superiores e, portanto, vulnerável às influências do mundo material, que Paulo denomina principados e potências (ἀρχαί καὶ ἐξουσίαι, Ef 6:12), reformulação cristã de um problema ontológico comparável.


Agostinho de Hipona, em De Doctrina Christiana II, não retoma simplesmente a bipartição platônica da alma, mas desloca a ênfase para a semiótica religiosa do pacto demoníaco: a magia e a superstição ligam o ser humano a potências inferiores por meio de convenções sígnicas pervertidas. Nesse sentido, a vulnerabilidade já não é descrita apenas como passividade do ἄλογον, mas como adesão desordenada a signos e potências que desviam a alma de sua reta ordenação a Deus.[14] Esta estrutura agostiniana (alma racional corrompida pela queda, vulnerável às potências inferiores, capaz de ser restaurada pela graça) é a matriz doutrinária que, transmitida através da escolástica medieval e da Reforma protestante, reaparece de forma dramaticamente amplificada na teologia pentecostal e neopentecostal brasileira do Séc. XX e XXI. A possessão demoníaca (encosto, obsessão, possessão na terminologia afro-espírita; possessão satânica na neopentecostal) é sistematicamente explicada como vulnerabilidade do homem carnal, equivalente funcional do ἄλογον (às investidas de entidades inferiores, e a libertação espiritual é descrita como restituição da primazia do espírito) equivalente funcional do λογικόν sobre as camadas inferiores da alma, mediante os rituais específicos de quebra de maldições, libertação de espíritos e batismo do Espírito Santo. O percurso histórico da distinção, de Plotino a Paulo, de Agostinho às igrejas neopentecostais brasileiras, é um dos exemplos mais eloquentes de transmissão transconfessional de uma estrutura ontológica que, ao longo de dois milênios, mudou de vocabulário e de contexto teológico sem deixar de recolocar, sob novos vocabulários e novas teologias, um problema antropológico análogo.


Se a ontologia aqui examinada explica por que a alma pode ser atingida e por quais meios pode ser protegida, resta ainda perguntar quem, em cada tradição, reivindica o saber legítimo para diagnosticar tal vulnerabilidade e operar sua cura. É precisamente essa questão sociológica do especialista ritual que conduz à seção seguinte.




NOTAS

[1] Para o enquadramento mais amplo do problema aqui isolado, a questão da vulnerabilidade da alma ao feitiço e das formas de resistência ontológica, pneumática e ritual, remeto o leitor ao texto inaugural desta série, Entre o Não-Racional e o Racional: A Economia Anímica do Feitiço e o Problema da Imunidade Religiosa, no qual se formula, em escopo comparativo deliberadamente mais amplo, a arquitetura geral do problema, desde os PGM e sua topografia anímico-corpórea do ataque mágico (psychē, kardia, hēpar, pneuma) até as ontologias platônicas do ochēma-pneuma, a demonologia privativa de Pseudo-Dionísio, a pneumatologia paulina, as tradições judaicas e islâmicas de proteção e suas recepções medievais, a Reforma e o neopentecostalismo. O presente ensaio deve, portanto, ser lido como aprofundamento de um núcleo específico dessa investigação inaugural: ali se delineia a cartografia trans-histórica da imunidade mágica; aqui se examina, com concentração filosófica maior, o momento estritamente platônico em que Plotino e Jâmblico elaboram, em torno de συμπάθεια, τὸ ἄλογον, νοῦς e ὄχημα, a explicação mais rigorosa da susceptibilidade mágica no Mundo Antigo.

[2] Plotino, Enéada IV.4.40.1-7, em Plotinus: Enneads, trad. Arthur H. Armstrong, Loeb Classical Library 444 (Cambridge: Harvard University Press, 1984), vol. IV, pp. 236-238. Texto grego em Plotini Opera, ed. Paul Henry e Hans-Rudolf Schwyzer, 3 vols. (Oxford: Oxford University Press, 1964-1982), vol. II, pp. 155-157. A tradução e o comentário filosófico mais completo desta passagem estão em: Luc Brisson e Jean-François Pradeau, trad. e coment., Plotin: Traités 38-41 (Paris: Flammarion, 2007), pp. 197-225.

[3] A doutrina da simpatia cósmica em Plotino e sua relação com a tradição estóica é analisada em: John M. Rist, Plotinus: The Road to Reality (Cambridge: Cambridge University Press, 1967), pp. 199–212; Michael Atkinson, Plotinus: Ennead V.1: On the Three Principal Hypostases (Oxford: Oxford University Press, 1983), pp. 23-40; e Paul Moraux, Der Aristotelismus bei den Griechen von Andronikos bis Alexander von Aphrodisias (Berlim: De Gruyter, 1973), vol. II, pp. 234-260. Para a naturalização de Plotino da magia como argumento filosófico: Pierre Hadot, Plotinus, or the Simplicity of Vision, trad. Michael Chase (Chicago: University of Chicago Press, 1993), pp. 88-102.

[4] Plotino, Enéada IV.4.43.18-21, em Armstrong, Plotinus IV, pp. 248-250. Texto grego em Henry-Schwyzer, Plotini Opera, vol. II, pp. 164. A passagem sobre a imunidade do σπουδαῖος à magia é analisada por Pierre Hadot em: Plotinus, or the Simplicity of Vision, trad. Michael Chase (Chicago: University of Chicago Press, 1993), pp. 88-102, e por Andrew Smith, Porphyry’s Place in the Neoplatonic Tradition (The Hague: Nijhoff, 1974), pp. 83-95. Para o contexto mais amplo da distinção ἄλογον/λογικόν na tradição platônica: A.C. Lloyd, The Anatomy of Neoplatonism (Oxford: Oxford University Press, 1990), pp. 98-122.

[5] A conexão entre a ontologia do ἄλογον e a prática da purificação preparatória é o tema central de: Gregory Shaw, Theurgy and the Soul: The Neoplatonism of Iamblichus (University Park: Pennsylvania State University Press, 1995), pp. 33-75. Shaw demonstra que, para os platônicos tardios, a purificação ritual não é superstição primitiva, mas intervenção ontológica precisa sobre a camada vulnerável da alma. Cf. Fernando Liguori. Daemonium: A Arte Hierática (Clube de Autores, 2026); Hieratikē Paideia (Clube de Autores, 2026).

[6] Cf. Wande Abimbola, Ifa: An Exposition of Ifa Literary Corpus (New York: Athelia Henrietta Press, 1997); Barry Hallen and J. Olubi Sodipo, Knowledge, Belief, and Witchcraft: Analytic Experiments in African Philosophy (Stanford, CA: Stanford University Press, 1997); Rowland Abiodun, Àṣẹ: Verbalizing and Visualizing Creative Power through Art, Journal of Religion in Africa, Vol. 24, no. 4 (1994): pp. 309-22; Kimbwandende Kia Bunseki Fu-Kiau, African Cosmology of the Bantu-Kongo: Principles of Life and Living (Brooklyn, NY: Athelia Henrietta Press, 2001); Wyatt MacGaffey, Fetishism Revisited: Kongo Nkisi in Sociological Perspective, Africa, Vol. 47, no. 2 (1977): pp. 172-84; idem, The Personhood of Ritual Objects: Kongo Minkisi, Etnofoor, Vol. 3, no. 1 (1990): pp. 45-61.

[7] Jâmblico, De Myst. I:1-5 e II:1-7, em Emma C. Clarke, John M. Dillon e Jackson P. Hershbell, eds. e trads., Iamblichus: De Mysteriis, SBLWGRW 4 (Atlanta: Society of Biblical Literature, 2003), pp. 1-28 e 63-95.

[8] A doutrina do ὄχημα πνευματικόν em Jâmblico e seus antecedentes platônicos: John F. Finamore, Iamblichus and the Theory of the Vehicle of the Soul, American Classical Studies 14 (Chico: Scholars Press, 1985), pp. 1-45. O conceito do ochēma remonta explicitamente ao Timeu de Platão (41e-42a), onde a alma é colocada num veículo (ὄχημα) antes de sua encarnação, e é desenvolvido por Porfírio em De Abstinentia I.31 antes de ser retrabalhado por Jâmblico. Para o contexto da história da noção de veículo da alma: Fernando Liguori. Kalunga: Teurgia & Cabalá Crioula (Clube de Autores, 2025); Hieratikē Paideia (Clube de Autores, 2026); Daemonium: A Arte Hierática (Clube de Autores, 2026).

[9] Shaw, Theurgy and the Soul, pp. 100–130, demonstra que a teurgia é uma resposta à limitação da via intellectualis plotiniana: enquanto Plotino confia na ascese intelectual como via de libertação da alma, Jâmblico afirma que apenas os próprios deuses podem salvar a alma (θεία χάρις, theia kháris, graça divina), e o ritual teúrgico é o canal desta salvação descendente (κατάβασις θεοῦ, katábasis theoû). Para a relação entre esta doutrina e a estrutura ritual dos PGM: Kimberly B. Stratton, The Eschatology of Greco-Egyptian Magic, em Guide to the Study of Ancient Magic, ed. Frankfurter, pp. 196-228.

[10] Proclo, De malorum subsistentia, ed. e trad. D.J. O’Meara e J.-M. Couloubaritsis (Lovaina: Publications Universitaires de Louvain, 1981), §§ 30-35; cf. também Proclo, In Timaeum III, ed. Ernst Diehl, Procli in Platonis Timaeum Commentaria, 3 vols. (Leipzig: Teubner, 1903-1906), vol. III, pp. 297. Para a teoria de Proclo acerca do mal e seu contexto filosófico: Stephen Gersh, From Iamblichus to Eriugena: An Investigation of the Prehistory and Evolution of the Pseudo-Dionysian Tradition (Leiden: Brill, 1978), pp. 150-185; e Jan Opsomer e Carlos Steel, trads. e coments., Proclus: On the Existence of Evils (Ithaca: Cornell University Press, 2003), pp. 1-45.

[11] A relação entre a ontologia procliana do mal como privação e a teoria da susceptibilidade mágica é proposta em: Christopher A. Faraone, Ancient Greek Love Magic (Cambridge: Harvard University Press, 1999), pp. 97-135, que analisa como a vulnerabilidade erótica (o tipo de susceptibilidade mais frequentemente explorada nos PGM) é compreendida na Antiguidade como desequilíbrio da alma, análogo à doença física. Cf. também: Dieleman, Priests, Tongues, and Rites, pp. 75-120.

[12] A conexão entre a ontologia da privação procliana e a prática ritual de preparação nos PGM é desenvolvida em: Shaw, Theurgy and the Soul, pp. 140-165. Para o paralelo afro-brasileiro específico: Juana Elbein dos Santos, Os Nagô e a Morte, 3.ª ed. (Petrópolis: Vozes, 1986), pp. 85-100.

[13] 1 Coríntios 2:14-15, em Novum Testamentum Graece, ed. Barbara Aland et al., 28.ª ed. (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012), pp. 450. A distinção ψυχικός/πνευματικός em Paulo é analisada em: Rudolf Bultmann, Theology of the New Testament, trad. Kendrick Grobel (Nova York: Scribner, 1951), vol. I, pp. 179-183; e Birger A. Pearson, The Pneumatikos-Psychikos Terminology in 1 Corinthians: A Study in the Theology of the Corinthian Opponents of Paul and Its Relation to Gnosticism (Missoula: Scholars Press, 1973), pp. 1-52. Pearson demonstra que a terminologia paulina está em diálogo com correntes do platonismo médio e do proto-gnosticismo, não sendo simplesmente bíblica.

[14] Agostinho de Hipona, De Doctrina Christiana II.20.30-II.24.37, em Corpus Christianorum Series Latina 32, ed. Joseph Martin (Turnhout: Brepols, 1962), pp. 55-62. Para a teoria agostiniana da magia como consequência da queda: David Frankfurter, The Magic of Writing and the Writing of Magic: The Power of the Word in Egyptian and Greek Traditions, Helios No. 21 (1994): pp. 189-221, aqui 201-204; e Valerie I.J. Flint, The Rise of Magic in Early Medieval Europe (Princeton: Princeton University Press, 1991), pp. 23-50.





 
 
 

Comentários


bottom of page