CABALÁ CRIOULA & PGM
- Fernando Liguori
- 20 de jan.
- 2 min de leitura

Por Táta Nganga Kamuxinzela
@tatakamuxinzela | @covadecipriano | @quimbandanago
Com a publicação de «Daemonium: a Quimbanda no Renascer da Magia» (Vol. II, 2022), introduzi sistematicamente, pela primeira vez no contexto afro-brasileiro, os Papiros Mágicos Gregos (PGM) como corpo comparativo fundamental para a compreensão das práticas da cabalá crioula (termo guarda-chuva que designa os sistemas mágicos afro-diaspóricos forjados no Atlântico Negro). Essa aproximação não foi meramente erudita, mas metodológica: o ambiente greco-egípcio da Roma Imperial constitui um laboratório histórico de miscigenação religiosa, no qual tradições egípcias, gregas, judaicas e orientais coexistem, se sobrepõem e se traduzem mutuamente. Compreender esse processo ilumina, por analogia estrutural, os mecanismos de crioulização que operam nas religiões afro-diaspóricas, incluindo a Quimbanda, onde técnicas universais da magia são rearticuladas por mitos, línguas e regimes simbólicos distintos.
Durante longo tempo, os PGM foram interpretados de maneira reducionista como simples «cadernos privados» de goētes, feiticeiros marginais, individuais e clandestinos, atuando à margem do culto oficial. Tal leitura, hoje insustentável, ignora o dado histórico elementar de que, no Egito romano, a cultura da escrita ritual era prerrogativa quase exclusiva da classe sacerdotal. Estudos decisivos demonstraram que muitos operadores por trás dos PGM eram sacerdotes egípcios helenizados, especialistas rituais, que transitavam entre o templo, o espaço doméstico e o mercado religioso urbano. A oposição moderna entre «sacerdote» e «feiticeiro» não reflete a realidade antiga: no contexto greco-egípcio, o mesmo agente podia simultaneamente oficiar cultos públicos, confeccionar imagens animadas (agalmata), operar ritos de purificação, realizar sacrifícios privados, produzir amuletos, invocar daimones e ensinar técnicas de ascensão ou descida ritual. A magia dos PGM não é anti-religiosa; ela é religião operacional, situada num regime em que templo, rito doméstico e prática individual formam um continuum.
É precisamente nesse ponto que a articulação com a cabalá crioula se torna conceitualmente decisiva. Assim como nos PGM, as tradições afro-diaspóricas não se estruturam a partir de uma cisão entre liturgia e feitiçaria, mas a partir de uma economia ritual integrada, na qual sacerdócio, magia, sacrifício, confecção de corpos espirituais e trânsito entre mundos são funções complementares. A Quimbanda, enquanto forma brasileira de goēteia, preserva essa lógica antiga: o Exu não é um espírito marginal, mas um operador ontológico, equivalente funcional dos daimones, paredroi e potências sublunares dos PGM. A cabalá crioula, nesse sentido, não é derivação tardia ou sincretismo empírico, mas a reconfiguração estrutural de uma ciência ontológica ritual africana, ameríndia e europeia (herdeira da cultua mágica mediterrânea) reencarnada em solo afro-atlântico. Ao reinscrever os PGM nesse horizonte comparativo, torna-se possível reconhecer a Quimbanda não como exotismo periférico, mas como essa herdeira viva de uma magia hierática muito antiga que se articula e se organiza em contextos culturais distintos, plenamente consciente de seus fundamentos técnicos, cosmológicos e ontológicos.
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Táta Nganga Kamuxinzela
Cova de Cipriano Feiticeiro
Bàbáláwo Ifáyẹmí
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